Resposta rápida: a gestão financeira de uma pequena empresa se apoia em 6 pilares, nesta ordem: 1) separar o dinheiro da empresa do dinheiro do dono, 2) registrar tudo o que entra e sai, 3) analisar os números, 4) precificar corretamente, 5) planejar com metas e 6) ter uma reserva financeira. Cada pilar depende do anterior. Pular etapas é o motivo mais comum de empresas que vendem bem e mesmo assim vivem sem dinheiro.
Empreender no Brasil é lidar ao mesmo tempo com vendas, fornecedores, funcionários, estoque, impostos, inadimplência e clientes. No meio disso tudo, as finanças costumam ficar para depois. E é aí que mora o problema: em mais de 500 empresas atendidas, a maioria não quebrou por falta de venda, e sim por falta de gestão.
Para mostrar cada pilar na prática, vou usar uma loja de eletrônicos que compra fones de ouvido de um fornecedor e revende. É uma empresa fictícia, com números simulados, mas a situação é a de muitos clientes que acompanho.
Os 6 pilares da gestão financeira em resumo
| # | Pilar | A pergunta que ele responde |
|---|---|---|
| 1 | Separação PF x PJ | Esse dinheiro é da empresa ou meu? |
| 2 | Controles financeiros | Quanto entrou e quanto saiu, centavo por centavo? |
| 3 | Análise financeira | A empresa dá lucro? Para onde vai o dinheiro? |
| 4 | Precificação | Meu preço paga tudo e ainda deixa lucro? |
| 5 | Planejamento financeiro | Quanto preciso vender para chegar aonde quero? |
| 6 | Segurança financeira | A empresa aguenta um imprevisto? |
Pilar 1: separação PF x PJ
O dinheiro que entra na empresa serve para manter o negócio saudável, crescer e gerar lucro no futuro. Ele não é a sua carteira. Quando tudo se mistura, os problemas aparecem rápido:
- o controle financeiro fica impossível;
- você não sabe quanto ganha e tem a sensação de trabalhar e não ganhar nada;
- as decisões saem erradas, porque os números estão contaminados;
- não sobra reserva e a empresa se descapitaliza.
Como fazer a separação
- Tenha contas bancárias diferentes para a empresa e para você.
- Defina um pró-labore fixo e mensal, compatível com o que a empresa gera.
- Defina uma data para receber esse valor, como qualquer funcionário.
- Mantenha-se com o seu pró-labore. É a parte mais difícil, e a mais importante.
Pilar 2: controles financeiros
Registre cada centavo que entra e sai do caixa, com data, categoria, descrição, valor e origem. Sem controle, a empresa erra no preço, gasta além da conta, não enxerga onde melhorar e não sabe se está tendo lucro ou prejuízo.
A rotina que recomendo é simples: lançar todos os dias, conferir com o extrato do banco toda semana e fechar o mês até o dia 5 do mês seguinte. Uma planilha bem estruturada já resolve. O que faz diferença é a constância.
Faturamento é ego, lucro é conceito e caixa é rei. Vender muito não adianta se não sobra dinheiro no fim do mês.
Pilar 3: análise financeira
Análise financeira é enxergar, a partir dos controles, o que está acontecendo com o negócio. Ela precisa ser simples e responder a três perguntas: quanto vendi, quanto saiu e quanto sobrou?
Exemplo ilustrativo da loja de fones, com números simulados.
| O que aconteceu no mês | Valor |
|---|---|
| Vendas | R$ 60.000 |
| Compra de mercadorias | R$ 31.000 |
| Impostos, comissões e taxa de cartão | R$ 8.400 |
| Gastos fixos (aluguel, salários, pró-labore, contador, energia) | R$ 12.000 |
| Parcela de equipamento | R$ 3.000 |
| Retiradas do dono além do pró-labore | R$ 4.000 |
| Total que saiu | R$ 58.400 |
| Dinheiro que sobrou | R$ 1.600 |
A loja vendeu R$ 60 mil e sobraram R$ 1.600. A operação até gerou R$ 8.600 depois de pagar mercadorias, gastos variáveis e fixos. Mas a parcela do equipamento e as retiradas extras levaram R$ 7.000. Repare que as retiradas extras são um problema do Pilar 1 aparecendo no caixa.
Com esses números, dá para calcular dois indicadores importantes:
- Margem de contribuição: R$ 60.000 − R$ 31.000 − R$ 8.400 = R$ 20.600, ou 34,33% das vendas. É o que sobra de cada venda para pagar a estrutura e gerar lucro.
- Ponto de equilíbrio: R$ 12.000 ÷ 34,33% = R$ 34.951,46. Abaixo desse faturamento, a loja tem prejuízo.
Se quiser ver essa análise mais a fundo, com ranking de gastos, leia por que a empresa fatura e não sobra dinheiro.
Pilar 4: precificação
O preço precisa cobrir quatro coisas: gastos variáveis, gastos fixos, investimento e lucro. Copiar o concorrente ou colocar um percentual em cima do custo ignora a estrutura da sua empresa. Para quem compra e revende, o caminho é o markup, em 6 passos.
1. Calcule a média das vendas
Use pelo menos os últimos 3 meses. Na loja: R$ 55.000, R$ 60.000 e R$ 65.000, média de R$ 60.000.
2. Calcule a média dos gastos fixos
Aluguel, salários, pró-labore, contador, energia, internet e sistema somam R$ 12.000 por mês. Sobre a média de vendas, a estrutura pesa 20% (R$ 12.000 ÷ R$ 60.000).
3. Identifique o custo do produto
Na revenda, é o valor pago ao fornecedor mais o frete da compra. O fone custa R$ 110,00 e o frete por unidade sai R$ 10,00: custo de R$ 120,00. Use sempre a última nota fiscal de compra.
4. Some os demais percentuais
| Percentuais sobre o preço de venda | % |
|---|---|
| Impostos (Simples Nacional) | 6% |
| Comissão do vendedor | 5% |
| Taxa de cartão | 3% |
| Investimento | 5% |
| Gastos fixos | 20% |
| Lucro desejado | 10% |
| Soma | 49% |
5. Calcule o markup
6. Calcule o preço e tire a prova
Preço de venda = R$ 120,00 × 1,9608 = R$ 235,29. Abrindo o preço, cada parte tem o seu destino:
| Venda de R$ 235,29 | % | Valor |
|---|---|---|
| Impostos | 6% | R$ 14,12 |
| Comissão | 5% | R$ 11,76 |
| Taxa de cartão | 3% | R$ 7,06 |
| Investimento | 5% | R$ 11,76 |
| Gastos fixos | 20% | R$ 47,06 |
| Lucro | 10% | R$ 23,53 |
| Reposição do fone (fornecedor + frete) | 51% | R$ 120,00 |
| Total | 100% | R$ 235,29 |
E se o dono usasse o "custo + 50%"? R$ 120,00 + 50% = R$ 180,00. Só impostos, comissão, cartão e gastos fixos (34%) levam R$ 61,20. Sobram R$ 118,80, menos do que o fone custou. Prejuízo de R$ 1,20 em cada venda, e quanto mais vende, mais perde.
Calcule o preço dos seus produtos: coloque os seus números na calculadora de markup grátis. Ela mostra o markup, o preço de venda e para onde vai cada real.
Preço também é valor percebido
Precificar exige estratégia. Depois de calcular, compare com o mercado. Se o preço ficar acima, antes de cortar o lucro, trabalhe o que faz o cliente aceitar pagar mais: apresentação do produto, atendimento cordial e transparente, pós-venda (perguntar se o cliente ficou satisfeito e pedir avaliação) e um marketing que mostre o valor do que você vende.
Pilar 5: planejamento financeiro
Aqui você define metas alcançáveis, mas desafiadoras, respondendo: o quê, por quê, quem, quanto, como, quando e onde. Com os números dos pilares anteriores, a meta deixa de ser chute.
Na loja, se o dono quer R$ 6.000 de lucro operacional por mês, a conta é: (gastos fixos + lucro desejado) ÷ margem de contribuição = (R$ 12.000 + R$ 6.000) ÷ 34,33% = R$ 52.427,18 de faturamento por mês. Com esse número, ele divide a meta por vendedor, por semana e por produto, e acompanha todo mês o previsto contra o realizado.
Pilar 6: segurança financeira
Toda empresa precisa de uma reserva de pelo menos 3 meses de gastos fixos, para imprevistos ou oportunidades. Esse dinheiro só pode ser usado em último caso.
Na loja: R$ 12.000 × 3 = R$ 36.000. Separando 30% de um lucro de R$ 6.000 (R$ 1.800 por mês), a reserva fica pronta em 20 meses. A segurança financeira é consequência dos outros pilares: sem separação, controle e preço certo, não há lucro para guardar.
Diagnóstico Financeiro JF
Avaliamos a sua empresa nos 6 pilares, mostramos onde ela está perdendo dinheiro e o que corrigir primeiro. Você sai com um plano de ação baseado nos seus números, não no achismo.
Perguntas frequentes
O que é gestão financeira de uma pequena empresa?
É ter os números do negócio organizados de forma clara para tomar decisões: quanto entrou, quanto saiu, quanto sobrou, se o preço dá lucro e quanto a empresa precisa vender. Não é só pagar contas: é saber para onde vai o dinheiro e decidir com base nisso.
Quais são os 6 pilares da gestão financeira?
Separação entre pessoa física e jurídica, controles financeiros, análise financeira, precificação, planejamento financeiro e segurança financeira. Eles devem ser implantados nessa ordem, porque cada um depende do anterior.
Por onde começar a organizar as finanças da empresa?
Separando o dinheiro da empresa do dinheiro do dono: contas bancárias diferentes e um pró-labore fixo, com data definida. Depois, registrando todas as entradas e saídas. Sem esses dois passos, qualquer análise ou preço fica baseado em números misturados.
Como calcular o preço de venda de um produto de revenda?
Some os percentuais que saem de cada venda (impostos, comissão, taxa de cartão, investimento, gastos fixos e lucro), calcule o markup pela fórmula 100 ÷ (100 − soma dos percentuais) e multiplique pelo custo do produto. A JF disponibiliza uma calculadora de markup gratuita no blog.
Quanto de reserva financeira a empresa deve ter?
Pelo menos 3 meses de gastos fixos, guardados em aplicação de baixo risco e com resgate imediato. A reserva é formada separando todo mês uma parte do lucro e só deve ser usada em último caso.